Salto
- Irei descer!
Esse era meu pensamento em cima daquela montanha. No ar podia-se ainda sentir o cheiro da neve fresca. Odor esse incomum ao meu olfato tinha cheiro de água e ao mesmo tempo de erva fresca, a sua alvura aguçava meus sentidos, me fazia crer que estava em um imenso nada, no meio de um vazio da existência. Olhava o céu como um viajante desorientado, nele eu podia ver o azul mais anil do qual já pude ver, tinha vontade de tocá-lo para ter em mim um pouco daquele tom suave impresso em meu espírito.
Contemplava a grandiosidade da vista, uma pista descendente coberta de neve, banhada pela luz solar e discretamente fitada pelo puríssimo céu. A minha desordem mental me dava uma imensa vontade de me lançar daquela íngreme ladeira a baixo, tal como uma pedra rolante, que solta gira sem barreiras, sem impedimento. Sentia eu essa necessidade, de saltar do azul, com a cabeça e os ombros encolhidos para assim talvez cair mais velozmente no branco infinito do solo coberto pela geada. No entanto percebo que os meus desejos não serão realizados assim tão simplesmente, estou ligado ao céu, atado a ele como se fossemos um, vejo que é impossível pular, praguejo contra o céu e maldigo a terra por tal impedimento. Lanço-me contra eles, desafio-os para um grande salto, para assim poder enganá-los e conseguir minha vitória.
Vejo-me de repente no fundo do vale, meus braços e pernas destruídos meu corpo quebrantado, vejo dor e tristeza, pessoas que um dia me amaram se compadecendo de meu ato, chorando e sofrendo com meu fim indigno. Percebo que interiormente estou oco, não há nada que me faça querer ficar no cume da elevação, sinto que mesmo com os sentimentos que provocarei com a minha desajustada decisão, nada me dissuadirá da mesma.
Entre curvas e vértices salto em direção ao nada, desço a ladeira vou deslizando entre a neve, sinto-me o dono do mundo, o centro do universo em torno de mim. Ao chegar ao chão vejo que meu distúrbio havia terminado que nada mais era do que a elevada altitude que havia me embriagado e feito com que eu tivesse tais momentos de loucura. Desejo então tornar mais uma vez ao pico da montanha e descer de novo e sentir outra vez aqueles sentimentos que me fizeram perceber que uma vida não vale o mesmo que um salto.