Carta de um apaixonado ao olhar a lua

Ontem estava a pensar em você, haviam em mim diversos sentimentos dos quais eu não sabia descrever. Comecei então a esvaziar minhas gavetas, meus armários; joguei muitas coisas fora.  Achava que a casa poderia ficar melhor assim, sem qualquer lembrança sua ou de qualquer outro que já tenha passado por minha vida.  Vi várias fotografias pessoas que já haviam ido embora da algum tempo, senti-me nostálgico ao ver aquelas memórias um tanto esquecidas, mas, entretanto vivas e presentes em meus pensamentos. Minha dor só piorou quando vi seus antigos bilhetes, naquele momento vi a falta que você me fazia. Notei que tudo aquilo que tinha acontecido entre nós foi apenas uma coisa simples, era mais profundo e de certa forma não tinha me dado conta. Relendo seus bilhetes vi que tudo o que fiz era imaturo, infantil. A vontade juvenil de querer voar sem ter asas para o voo, me fez acreditar que você me impedia de seguir adiante. Só que antes eu não sabia que “minhas asas” eram você; comecei a voar a partir do dia em que te conheci. Fiquei durante todo o dia remoendo tais recordações, vendo que meu sofrimento nada mais era causado pela minha ignorância e arrogância. Deixar você ir talvez tenha sido a mais idiota das atitudes que um dia já tive. Ver você em seus bilhetes só me fez pensar que você era a única pessoa que me fez acreditar que um dia eu poderia levantar voo. No momento em que pensei nisso olhei pela janela, já era o entardecer, vi o céu com uma gama incrível de tons e cores, me lembrei então de Ícaro e de seu sonho de alcançar o sol, mas ao chegar perto dele ver suas asas se desfazerem, no mesmo tempo lembrei-me de Galileu e sua visão sobre o espaço, a terra girar em torno de si mesma e do sol. Logo notei como era ridículo comparar o mito com o fato científico, mas ao mesmo tempo o quanto o céu de Ícaro era mais poético do que o de Galileu. De repente lá estava ela a lua, via o quanto era bela e o quanto ao mesmo tempo ela me fazia lembrar você, contemplei todo o seu disco iluminado. Me indignei ao ver que como tal lugar, que para os apaixonados era sagrado, poderia ter sido visitado por militares, teria sido melhor proveitosa a visita de bailarinos, que pairariam ajudados pela fabulosa gravidade ou de nós dois que poderíamos eternamente viver de nosso amor. Naquele instante as fabulações de minha mente terminaram.

Do seu Ícaro.

Inspirado na canção “Tendo a Lua” Os Paralamas do Sucesso.